O Búlgaro

Péter Russév era um homem elegante
"O socialismo não funciona, exceto no céu, onde não é necessário, e no inferno, onde sempre existiu." (Stephen Leacock)

Pétar Russév atravessou o oceano.
Tinha um metro e noventa e cinco, olhos azuis, pele clara e uma aparência de nobreza - dessas misteriosas provenientes da região dos Balcãs - que entorpecia quem chegasse por perto. Frequentava os principais círculos literários de seu país e era membro do Partido Comunista.
A Bulgária vivia tempos difíceis. Pétar Russév estava falido e se não bastasse o governo repreendia e perseguia qualquer pessoa que fosse guiada pelo Manifesto Comunista. Quando resolveu atravessar o oceano, deixando Evdokia Yankova - sua esposa - grávida de sete meses, no cais, prometeu voltar. Pétar nunca mais apareceu e Luben Russév não teve a chance de conhecer o pai.
Era 1929. O mundo estava na véspera de entrar em colapso. Pétar Russév ancorou em Paris e prumou rumo à Bahia, predestinado a encontrar uma vida nova na América do Sul. Acostumado com um inverno rigoroso, com temperaturas chegando a dez, quinze graus abaixo do zero, Pétar não demorou muito tempo para abandonar Salvador e partir para Buenos Aires. Na Argentina viveu alguns anos - embora haja poucas referências em relação a esse período de sua vida. No final dos anos trinta voltou ao Brasil, com algum dinheiro no bolso. Fez o dinheiro render em pouco tempo. Diziam que era bom de negócios.
Russév, sua esposa e os filhos
Numa viagem ao interior de Minas Gerais, Pétar Russév se apaixonou por uma professora de vinte anos. Ela era conhecida como a mulher mais linda de Uberaba e embora tivesse exatamente a metade da sua idade e fosse filha de um pecuarista rico e influente na região, logo se encantou com o homem búlgaro misterioso, sempre bem trajado e com aquela aparência de negociante judeu. Peter Russév trabalhou para a siderúrgica Mannesmann e entrou para o ramo imobiliário. Ficou rico da noite para o dia.
Distante daquele universo, Luben Russév estudava engenharia na capital da Bulgária. O comunismo havia tomado o país, com a ajuda da União Soviética, e Luben era visto com perigo pelo governo - não apenas porque seu pai havia abandonado a causa para reconstruir a vida num país capitalista, mas também porque Luben flertava com a Social Democracia. Constantemente o garoto enviava cartas pedindo para que o pai o ajudasse a fugir para o Brasil. Pétar enviava alguns dólares escondidos em cartões postais, para que passassem despercebidos pela guarda. Lubén Russév fazia parte de um passado que Pétar gostaria de esquecer. Era um homem rico, realizado. Tinha uma casa espaçosa, três empregadas, e embora a sociedade local tivesse certa resistência em relação a estrangeiros, Pétar Russév prosperou. Amava os pequenos prazeres da vida - fumava cinco maços de cigarro por dia, jogava cartas, bebia uísque. Estava condicionado a ser um Bon Vivant. Em pouco tempo teve três filhos - Igor, Lúcia e Dilma. Se naturalizou brasileiro, afrancesou o nome.
O búlgaro passou a ser chamado de Rousseff.

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