O Calabouço
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| O estudante Edson de Lima Souto |
- "Das lutas de rua no Rio
- em 68, que nos resta
- mais positivo, mais queimante
- do que as fotos acusadoras,
- tão vivas hoje como então,
- a lembrar como a exorcizar?"
(Carlos Drummond de Andrade)
Quando o comandante da tropa da Polícia Militar do Rio de Janeiro, o aspirante Aloísio Raposo, apertou o gatilho matando à queima roupa o estudante Edson Luís de Lima Souto, de dezessete anos, no final da tarde de uma quinta feira chuvosa, em frente ao restaurante Calabouço, certamente não passou por sua cabeça que aquele ato traria tamanha consequência à trajetória da política brasileira pelas próximas gerações. O restaurante funcionava em anexo ao Instituto Cooperativo de Ensino, na esquina da Avenida General Justo com a Santa Luzia, no centro do Rio, onde o garoto cursava o segundo grau. Era 1968. O Brasil vivia o início dos anos de chumbo da ditadura militar.
O Calabouço havia sido inaugurado em 1951 como parte da política populista de Getúlio Vargas, e oferecia comida barata para estudantes de baixa renda do Rio de Janeiro. Naquela noite cerca de 600 manifestantes protestavam contra o aumento do preço da comida adotado pelo restaurante. Em pouco tempo os militares colocaram o Calabouço abaixo. Edson recebeu um tiro calibre 45 na altura do peito e faleceu nos braços do movimento estudantil.
Temendo que a Polícia Militar sumisse com o corpo, Edson foi carregado em romaria pelos estudantes até a Assembléia Legislativa. A notícia da tragédia se espalhou rapidamente. Pela manhã, mais de 50 mil pessoas tomaram as ruas, não apenas para imacular o jovem assassinado, mas também para protestar - como nunca antes, até então - contra o regime militar que a quatro anos se instalara no país. Um jovem, pobre, filho de uma lavadeira, que sonhava se tornar médico, havia entregue sua vida em sacrifício ao movimento estudantil. 'E podia ser seu filho', ecoava pelas ruas da cidade. A camisa manchada de sangue se tornou um símbolo da repressão e foi carregada pelos estudantes durante todo cortejo. O Rio de Janeiro parou. Edson foi enterrado ao som do Hino Nacional Brasileiro, entoado pela multidão.
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| Padres formam cordão de isolamento |
A missa de sétimo dia foi realizada na Igreja da Candelária, às 18 horas, pelo vigário-geral do Rio de Janeiro, Dom José de Castro Pinto. A celebração reuniu cerca de 600 pessoas. Estudantes, operários, sindicalistas e religiosos condecoravam o jovem assassinado. Edson havia se transformado num mártir da revolução. Durante a missa a cavalaria cercou as saídas da igreja. Tanques de guerra se posicionavam em locais estratégicos e agentes do DOPS se espalhavam pelos cantos. Os cavalos atropelavam quem ousasse sair da igreja. Quando chegou o fim da celebração a violência tomou conta das ruas do Rio de Janeiro. Diante das cenas um grupo de padres saiu de mãos dadas, formando um corredor de isolamento da porta da igreja até a Rua Rio Branco, para que as pessoas saissem em segurança. Não funcionou. A cidade adormeceu banhada em sangue.
Edson Luís de Lima Souto se transformou num herói de uma geração disposta a entregar a própria vida para defender seus ideais. Sua morte representou o nascimento de uma organização que lutava contra o regime militar, com uma visão política de esquerda e anti americana. Em poucas semanas ela seria responsável por uma das maiores e mais expressivas manifestações populares da história brasileira - a Passeata dos Cem Mil - que reuniria estudantes, artistas, intelectuais e operários, sob a batuta dos líderes Vladimir Pereira, César Benjamin e José Dirceu - que anos mais tarde seriam os responsáveis, junto com o sindicalista Luís Inácio Lula da Silva, pela fundação do Partido dos Trabalhadores.
A Dilmocracia caminhava através da história.


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